sábado, 13 de março de 2010

A imigração vista pelos olhos de uma criança


Urda Alice Klueger

Eu convivi muito com a minha avó, Emma Katzwinkel Klueger, que chegou ao Brasil no final do século XIX, vinda da Lituânia. Ela chegara já com sete anos, idade em que uma criança se lembra de quase tudo, e como gostava de ouvi-la contar sobre sua vida lituana, sua viagem para o Brasil, a chegada às terras que seriam do meu bisavô, um lugar meio indefinido, que, segundo ela, é onde hoje está a represa de Rio dos Cedros! Como ela era criança (tinha mais dois irmãozinhos pequenos, nascidos em terras Bálticas – outros dois nasceriam no Brasil), o que ela viu, assistiu, participou, foi sempre com os olhos de uma criança, e foi com essa visão de criança que, muitas décadas depois, ela me passou o que aconteceu.

Eu sei que Blumenau tinha o “Barracão dos Imigrantes”, lugar onde essa gente que passava três meses atravessando o mar podia descansar um pouco, refazer-se um pouco, antes de pegar o rumo da floresta desconhecida que seria o seu lar. Fala-se, hoje, nos desconfortos do tal Barracão, mas, em todo o caso, era um lugar em terra firma onde havia aquele descanso tão necessário. Minha avó nunca me falou do Barracão, nem de como eles andaram mato adentro para chegarem nas terras, mas me falou muito da sua primeira noite no mato. Seu pai cortou palmitos e montou uma pequena casa, um rancho, coberto pelas folhas dos próprios palmitos, e eu fico a imaginar que ele aprendera a técnica nos dias ou semanas em que ficou no Barracão dos Imigrantes, para fazer num instantinho uma casinha assim. Lá dentro, arrumaram as suas coisas para uma primeira noite: baú e caixas contra a parede, camas muito precárias no chão. Mais tarde, talvez no dia seguinte, tratariam de fazer camas suspensas, estrados de renda de cipó, onde as pessoas poderiam dormir mais ao abrigo de formigas e outras coisas. Naquela primeira noite, porém, não houve tempo. Tão logo houve cama pronta no chão, e alguma coisa para comer, as crianças foram dormir.

Pensem comigo: criança é assim mesmo, desde que o pai e a mãe estejam por perto, elas dormem calmamente em qualquer lugar, sem sentir medo de nada. E minha avó e seus dois irmãozinhos entregaram-se aos braços de Morfeu tranqüilamente, e dormiram que foi uma beleza. Teriam dormido assim até de manhã, não fosse a trovoada que caiu: a pequena cabana fora construída num declive de terreno, e a água daquela assustadora trovoada tropical entrou cabana adentro, querendo levar tudo de roldão e molhando todo o mundo que dormia no chão. Ela lembrava-me como acordara, como foram socorridos pelos pais. Era um pouco folclórico, aquele acontecimento da trovoada, e o que ela contava a seguir era da manhã seguinte, quando meu bisavô tomou as primeiras providências contra trovoadas tropicais, abrindo valetas ao redor daquela casinha de nada, feita de palmitos. Decerto depois que a água inundou a casinha, os pais botaram as crianças a dormir em lugar seco, isto é, sobre as caixas e baú , e elas de novo se esqueceram do mundo. Muitas outras coisas da vida desta minha avó eu já contei em crônicas e livro – ela não é uma estranha para a Literatura.

Então eu chego à conclusão: soube do que acontecia na primeira noite de um imigrante no mato pelos olhos de uma criança, e criança dorme bem e é feliz desde que os pais estejam por perto. Tive dessa primeira noite uma experiência romântica, bonita, apesar da assustadora trovoada, pois tudo foi visto pelos olhos de uma criança que se sentia protegida pelos pais.

Como terá sido para os meus bisavós, no entanto, tal experiência? Que sentiram, pessoas adultas, ao verem a tempestade quase por abaixo a casinha que era o único socorro que tinham? Quais os medos que os acometeram quando ouviram todos os ruídos do mato circundante, todos os pios, rugidos e outras coisas, e pensaram na possibilidade de índios andando ali fora, já que se estava em plena guerra com os nossos Xoklengs? Isto foi coisa que eu descobri depois. Um dia eu conto.


Urda Alice Klueger, escritora e historiadora, colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

.

PressAA

.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Dia Internacional. Dá, mulher!


“Fala-se que a miscigenação deu-se pelo estupro. Gilberto Freyre, hoje renegado, mostra que isso se deu de forma muito mais consensual”, [senador Demóstenes Torres (DEM-GO) combatendo as cotas para negros nas universidades, em audiência pública do Supremo Tribunal Federal].


MULHERES

Laerte Braga

Na opinião de um arcebispo católico o “feminismo” só se justifica se as mulheres “tomarem a vida como filhas de Maria”. Não é o que pensa a “sister” Fernanda. Atendendo a um apelo da família resolveu soltar-se no programa BBB. Dançou de forma sensual. A outra, ex-PM, fez um strip tease e ficou só com a parte inferior do biquíni.

A família democrática, cristã e ocidental vota, mais de 60 milhões de ligações, para os telefones da arena contemporânea. Eliminar esse ou aquele no programa. Um frenesi “revolucionário”.

"Lembre do seu sonho e se doe a essa oportunidade: você conseguiu isso na melhor época da sua vida - solteira e começando sua profissão. Esquece o mundo aqui fora. Viva intensamente essa oportunidade surreal e não se esqueça que você é solteira e mostre o diabinho que tem dentro de você”.

É um trecho da carta da irmã da “sister” interpretando o desejo e a vontade da família. No final ao invés de uma cenoura, um milhão e meio de reais. A moça considerou a carta como uma “dica explícita”. Não só dançou, como bebeu e sem ser fumante, roubou um cigarro de um “brother” e deu umas tragadas.

É dentista, não deve conhecer aquele creme dental que protege você doze horas por dia, contra doze problemas bucais. Breve vai estar na telinha estalando os dentes.

Herbert Viana em texto postado na internet –

“... pelo amor de Deus, eu não quero usar ninguém, nem falar do que não sei, nem procurar culpados, nem acusar ou apontar pessoas, mas ninguém está percebendo que toda essa busca insana pela estética ideal é muito menos lipo-as e muito mais piração. Uma coisa é saúde, outra é obsessão. O mundo pirou, enlouqueceu. Hoje Deus é a auto-imagem. Religião é dieta, fé só na estética, ritual é malhação”.

Inquirido, isso mesmo, inquirido sobre as mulheres as vésperas do Dia Internacional da Mulher, um deputado de sobrenome Andrada (os Andradas mamam em tetas públicas desde os tempos da loba que amamentou Rômulo e Remo) disse o óbvio do absoluto vácuo cerebral –

“conquistaram seu espaço sem perder a graça e a beleza femininas de mãe”.

Celso Furtado considerou a revolução feminista a mais importante do século XX. O notável brasileiro tinha formação marxista e considerava a caminhada das mulheres de maior importância que a revolução de 1917.

Ao longo dos séculos a mulher foi propriedade privada do homem. Essa caminhada foi deixando corpos e almas estendidos por esses mesmos séculos passados, num processo de lutas que certamente não pretendia e nem pretende terminar na dança sensual de uma “sister” aconselhada a liberar-se tendo em vista a cenoura no final da vara.

Existem milhões de trabalhadoras anônimas que sustentam os pilares da família cristã, democrática e ocidental, não aparecem na televisão e nem fazem danças sensuais, sequer imaginam o que seja uma lipoaspiração, sujeitam-se a privações de toda a sorte e emergem triunfantes na extraordinária capacidade do ser humano de amar a si no reconhecer o outro.

E empunham bandeiras por reforma agrária, como empunharam pelo direito do voto. Ou terminaram em fogueiras cristãs por conta de “bruxarias”. João, o Inglês. Penso que o feminino de papa, papisa, existe só por conta de Joana ou Gilberta. Disfarçada de monge, por conta de sua inteligência e seus notáveis conhecimentos, sucedeu a Leão IV com o nome de João VII.

Teria morrido apedrejada em meio a uma procissão quando dava a luz a um filho gerado por outro monge. Fora fácil disfarçar a gravidez, mas impossível evitar o parto. Os cardeais gritavam “milagre, milagre”.


O arcebispo sugere que a vida seja tomada como Maria a tomou. A papisa foi apedrejada até a morte por ter “profanado o trono de São Pedro”.

Não se trata, necessariamente, da Igreja Católica, mas do que Foucauld chama de “desatino”, no que desatino representa em seu todo, historicamente, a contestação à ordem instituída.

Na exclusão. Na ordem natural dos registros não existe a papisa. Na “foto” desses arquivos ela foi apagada.

O dilema da “revolução feminista”, para usar a expressão de Celso Furtado, está exatamente na capacidade da mulher perceber que todo esse processo não pode ser, mas está sendo, apropriado pela ordem dominante dos nossos dias.

A “revolução” busca transformar seres em objetos. Um retrocesso cruel e perverso que leva ao nada. Homens e mulheres.

Uma nova Idade Média. Os shoppings e seus imensos fossos de néon e brilhos.

Ao longo da ditadura militar tombaram várias mulheres guerreiras. Capazes de indignarem-se com a bestialidade do regime. Empunharam metralhadoras como enfrentaram fogueiras em tempos passados. Ou marcharam pelo voto.

Há dias atrás Anita Leocádio Prestes, filha de Luís Carlos Prestes e Olga Benário, recusou os favores da ordem dita democrática. Pensões, indenizações, compensações.

Permaneceu íntegra e Maria em sua essência. Não aquela forjada pelos cardeais trezentos anos depois do Cristo. E desejada pelo arcebispo nos dias de hoje. Não cruza a fronteira da liberdade para ingressar nos shoppings. E tampouco veste o hábito da hipocrisia.

Nem se estende em danças sensuais numa prostituição travestida de liberdade, escondendo o real objeto. “Cacau dá água na boca”.

Nem vou falar de Maria Madalena.

São muitas “marias”.



Irmãos e irmãs, mas companheiros e companheiras numa luta que não terminou. Não tem só a cor da “revolução feminista”.

Tem todos os matizes do ser humano na busca de outro mundo possível, onde a “ração seja exposta ao sol e dividida”.

É uma luta que permanece e não inclui, por exemplo, Hillary Clinton. Mas mulheres palestinas vítimas da boçalidade sionista. Ou mulheres muçulmanas castradas em sua essência, no que o Profeta não disse.

E mulheres objetos no capitalismo devasso dos que jogam água suja em “vadias”, de suas janelas limpas e cristalinas da verdade vaticana vendida em qualquer loja de conveniência ou numa mesa de um centro cirúrgico de lipos. A sede é em Wall Street.

E nem é uma luta solitária. É de mulheres e homens, no mesmo passo.

É pela vida, pelo ser humano. E antes que a “revolução” seja tragada pelas elites políticas e econômicas e vire uma Kátia de Abreu da vida.

É fundamental que seja Doroty Stang.

Toda a violência contra a mulher, contra qualquer ser, tem a sua raiz no “atino” dos que constroem monstruosos “hospitais/shoppings” para os “desatinados” se atinarem.

É a hora e a vez dos desatinos.

Uma outra etapa do processo. Aí sim, será uma revolução total.

A mulher cubana, a mulher vietnamita, a mulher afegã, a mulher camponesa. A mulher operária. A mulher DASPU.

Continuam a ser apedrejadas por profanarem o trono de Wall Street.

Torna-se necessário o retomar a revolução e caminhar desatinadas/os nas cidades imersas no grito silenciado do progresso transformado em alienação/exclusão nas telas/telinhas/páginas do desodorante que não exige máscaras para que os banheiros sejam limpos.

Que banheiros? Os que eles sempre sujaram...

O Dia Internacional da Mulher é de reflexão. De todo o ser humano. Há que ser a “volta dos mortos vivos” (para lembrar o extraordinário e centenário Roberto Menezes).

Eles continuam a nos impingir os bezerros de ouro. À homens e a mulheres.


Laerte Braga, jornalista, colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

.

PressAA
.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Pedra no inimigo comum


Urda Alice Klueger*

Tenho até que marcar o dia para nunca esquecer: 02.03.2004. Vi as imagens no Jornal do Almoço e ainda estou rindo de orelha a orelha. Era uma coisa que se esperava, que se sabia que viria, mas não pensava que seria tão já: sunitas e xiitas unidos, no Iraque, tacando pedra em soldados estadunidenses armadíssimos, que tiveram que fugir da multidão, abrigar-se no seu jipe de guerra e dar no pé.

Vamos tentar entender o que são sunitas e xiitas – ambos são muçulmanos. É a mesma coisa que entre os cristãos: há católicos e protestantes. Daí você vai dizer que com os cristãos é diferente, que católicos e protestantes não se matam – que bobagem, meu amigo! O fato de que aqui no Brasil as disputas entre as diversas seitas cristãs ficarem a nível de pequenas discussõezinhas bíblicas e grandes desprezos de vez em quando não quer dizer nada. Até hoje católicos e protestantes se matam, como é o caso da Irlanda do Norte, e se formos procurar exemplos na História, ao invés de uma crônica sai um compêndio. Vamos a um deles: a Noite de São Bartolomeu. Ela aconteceu na França em 24 de agosto de 1572. Começou pelas Tulherias, que era então o palácio real, e estendeu-se por mais algumas semanas, alastrando-se por todo o país. Num instante se mataram 10.000 huguenotes, que era como se chamavam os protestantes de lá, e há centenas e centenas de relatos dos requintes de crueldade com que os cristãos tratavam os outros cristãos, tipo assim:

- “ Achei um bebezinho aqui na torre! Levantem as lanças, para ver quem consegue espetá-lo primeiro, quando eu o jogar!”

Foi bem barra pesada o que aconteceu com os cristãos huguenotes na França do Século XVI, mas é só um exemplo. Há pencas de outros, onde cristãos mataram cristãos em nome de Jesus. E há muçulmanos que matam muçulmanos em nome de Alá. Tudo a mesma coisa.

Então, temos os sunitas e os xiitas, as duas principais facções lá do mundo muçulmano. E o Iraque vinha sendo governado por um sunita chamado Saddam Husseim fazia muito tempo, o que quer dizer que os sunitas estavam por cima da carne seca, enquanto os xiitas tinham que amargar a necessidade de ficarem quietos se não quisessem se incomodar. Até que um cara chamado Bush II, mais conhecido como Mister Cachorro Louco, resolveu ir lá e se apossar do petróleo do Iraque, e foi lá e bombardeou tudo, e achou que estava mandando no país. É claro que não é assim que se domina nada, ainda mais um país com uma cultura de tantos milhares de anos. Os católicos e os protestantes de lá, isto é, os sunitas e xiitas, num primeiro momento tiveram que ficar quietos e engolir a invasão – até passaram a se reorganizar, os xiitas achando que poderiam voltar, um dia, ao poder que um dia já fora deles, e ressuscitaram suas tradições, seus rituais e seus dias santos que estavam proibidos, e voltaram a se pegar de pau com os antigos adversários, os sunitas, já pensando e programando o futuro quando conseguissem correr com o Mister Cachorro Louco. Até que chegou o dia 02.03.2004.

No dia 02 de março de 2004 os xiitas estavam comemorando um dia santo seu que estivera proibido quando a turma de Saddam Hussein governava. Como alguns xiitas vêm colaborando com o invasor que quer o petróleo, seus opositores não tiveram dúvida: fizeram uma série de atentados aproveitando o dia santo, e acabaram morrendo perto de 140 pessoas. Grande pânico no Iraque, os feridos se contavam às centenas, e na praça pública os católicos e protestantes de lá tentavam enfiar o dedo nos olhos uns dos outros, e a confusão estava grande. Foi então que o jipão do invasor chegou, e os soldados estadunidenses cheios de armas poderosas resolveram saltar e botar ordem na casa. Que aconteceu?

Quando avistaram o verdadeiro inimigo, xiitas e sunitas esqueceram as diferenças e se lembraram de que Alá era um só, e, unidos, juntaram as primeiras pedras que encontraram, e saíram todos correndo atrás dos soldados, botando a correr o inimigo comum.

É, seu Bush, seu Bush, ainda estou rindo até as orelhas! Foi uma data inesquecível!

Blumenau, 04 de Março de 2004.



*Urda Alice Klueger, escritora e historiadora, colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

.

PressAA

.